A guerra das mídias e a perda de conteúdo

Por muitas vezes, ouvimos por aí frases um tanto comuns.

“Aquele filme poderia ter sido muito melhor.”
“Ah, que potencial perdido!”
“O livro/jogo/quadrinho era melhor!”

Agora, é hora de nos perguntarmos o motivo disso e, por que não, tentar entender como a indústria cinematográfica pode nos dizer bastante sobre como a arte se perde pela limitação da mídia e pelo enfoque no viés comercial. Vamos às explicações…

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  • A problemática das adaptações

Não muito raramente, podemos ver tais frases surgindo de pessoas após terem contato com adaptações de uma mídia em outra. Falando em casos intrinsecamente ligados ao cinema, podemos pegar um exemplo recente e um antigo: Percy Jackson Batman vs Superman. 

A franquia Percy Jackson foi duramente criticada não só por pular cenas importantíssimas do livro, mas também por oferecer uma narrativa inferior ao que os fãs conheciam. Apesar dos erros no primeiro filme, muitos acreditaram que eles acertariam em “O Mar de Monstros”, mas o resultado da sequência foi um fiasco tanto cinematográfico quanto de bilheteria, o que fez com que a série fosse praticamente abandonada nos cinemas. Não é impossível a franquia voltar a aparecer, mas ela precisaria de um reboot e produção melhores que os filmes já feitos até então, coisa que desanima facilmente produtos, principalmente depois do fiasco inicial. Ela pode ser mais uma série de livros que pode vir a enfrentar o limbo eterno, assim como foi o caso do filme Eragon.

Já Batman vs Superman teve críticas positivas e negativas, mas a realidade é que temos um filme com pouco desenvolvimento de personagens, muita ação e pouca reação. Isso quer dizer que ele simplesmente aconteceu e ninguém sabe ao certo como seria uma sequência a ele ou outros filmes do universo cinematográfico DC. Contudo, o que mais se viu foi uma grande discussão entre os fãs de quadrinhos. Enquanto alguns diziam ter referência demais, outros disseram que o filme não fez justiça à HQ na qual ele claramente é baseado: Batman – O Cavaleiro das Trevas. 

E aí que entra o ponto “X” que conecta esses dois filmes a tantas outras adaptações que poderiam ser tão boas, ou até mesmo melhores, quanto o material original no qual se baseiam. Roteiro, direção e produção são as palavras-chaves de um longa-metragem, e elas não podem ser esquecidas mesmo quando se trata de algo que “já está pronto”. Apostar em mero fanservice e na paciência dos fãs não é o caminho para se adaptar uma obra famosa, é preciso ter certa originalidade quando se trata da execução de certas cenas. Não é à toa que cada filme tem o seu orçamento, você consegue imaginar Senhor dos Anéis sem metade dos efeitos especiais que ele tem? Quando se trata de pegar uma obra famosa, parece que há um desejo apressado de aproveitar o hype dela sem entender o que o autor queria passar, fazendo com o que o conteúdo original que cativou a tantos em primeiro lugar se perca nessa nova mídia, que abre muito espaço para surpreender audiovisualmente o espectador.

Kingsman – Serviço Secreto, que indicamos através de nossa página do Facebook, é um exemplo perfeito de como é possível manter o espírito de uma obra original (esta baseada em quadrinhos) e criar um conteúdo novo e divertido. Ou se formos falar de obras com um conteúdo mais sério, possivelmente polêmico, podemos citar o clássico Laranja Mecânica (esta baseada em um livro). Os dois são de épocas distintas e baseados em mídias diferentes, mas continuam sendo ótimos filmes. Isso mostra que nada impede qualquer nova adaptação de seguir o mesmo nível de qualidade sem se deixar levar pelo possível lucro a ser conseguido. Ou vocês acham mesmo que o final de Jogos Vorazes precisava ter sido dividido em duas partes?

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  • Será que escolheram a mídia certa?

O cinema possui um incrível apelo visual e auditivo. Uma boa atuação junto a um trilha sonora boa pode disfarçar um roteiro mediano, assim como um livro ou quadrinho com escrita polida pode disfarçar uma trama superficial e assim como um jogo com bons gráficos pode disfarçar ser genérico. Pois bem, tudo depende de quem trabalha com a mídia e como trabalha. Vamos pegar por exemplo Avatar, de James Cameron. É uma obra visualmente espetacular, mas que peca em ter um roteiro original ao contar uma história pífia e previsível. Contudo, foi um filme que lucrou mais do que Titanic, mesmo havendo uma grande diferença de qualidade de história entre os dois.

O motivo se deu pelo uso adequado da mídia, que em momento algum visava a criar algo espetacular no sentido de trama, mas sim, no sentido de combinação de efeitos visuais com trilha sonora envolvente e cenas de ação bem dirigidas. Se formos olhar a lista de filmes de maior lucro, veremos outras obras com histórias mais impactantes e criativas, como A Origem O Rei Leão, abaixo de Avatar. Isso não quer dizer que essas obras sejam ruins ou menos importantes, mas mostra como o combo “diretor famoso + belos efeitos visuais + propaganda pesada” pode criar um sucesso instantâneo. E ao olharmos os cinquenta primeiros filmes de maior lucro, notaremos a ausência de obras clássicas do cinema. O Poderoso Chefão, Cães de Aluguel, 2001 – Uma Odisseia no Espaço… e aí que entra a questão: o que fizeram os filmes que compõe esta lista estarem ali?

A resposta é um tanto simples: eles foram feitos por quem sabe trabalhar comercialmente com a mídia. Mesmo que alguns da lista não sejam inteiramente aclamados pela crítica, eles souberam se divulgar e proporcionar um entretenimento competente o suficiente para conseguirem arrecadação constante a ponto de lucrarem mais do que uma produção comum. Vemos aí a arte se perdendo em detrimento do sucesso comercial. E por isso, o bom uso da mídia pode provocar resultados surpreendentes, seja para o bem ou para o mal. Ao mesmo tempo que vemos uma obra como Avatar sendo superestimada, podemos ver um bom e divertido resultado como o recente Deadpool, que se tornou um dos filmes +18 mais rentáveis de todos os tempos graças à sua qualidade como filme e sua forte divulgação da marca do personagem.

Aliás, a soma roteiro/narrativa + mídia pode nos explicar um fator que atrapalha adaptações darem certo. Vamos imaginar um pouco: teria Game of Thrones dado certo se fizessem um filme para cada livro ao invés de uma série para toda a saga? Considerando o extenso conteúdo narrativo e os múltiplos personagens, seria preciso “espremer” muito para caber todo o conteúdo. E é aí que surge a palavra-chave: contração. Produções grandes tendem a ter até mesmo duas horas de filme, mas como tanto o orçamento quanto roteiro variam, essa duração também há de mudar para mais ou para menos. O dever do roteirista e do diretor não se resume mais só a contar uma boa história, mas uma história que seja bem ritmada, bem construída e que possa ter uma duração adequada à narrativa. Game of Thrones funciona melhor como série pois a narrativa permite. Um filme comprimiria muito e seria necessário muitos cortes para adaptar um livro por filme. E caso não o fizessem e optassem não adaptar um livro por inteiro, haveria o risco do retorno não ser o esperado e, assim, impossibilitando dar sequência à trama não terminada em um possível primeiro filme, algo que poderia até mesmo deixar os fãs com raiva. Por isso, torna-se mais fácil apostar em livros populares com uma narrativa mais direta. A saga Maze Runner não está ganhando sequências frequentemente à toa; ela deu certo.

Em resumo: há livros, quadrinhos e até mesmo jogos que funcionam melhor como eles são, assim como há filmes que só funcionam como filmes. Citei de começo o próprio Avatar pois ele ganhou um videogame baseado nele graças ao sucesso do filme. Logo, o esperado é que o jogo venderia tanto quanto, certo? Errado. Além de ele ter sido destruído pela crítica, hoje em dia é praticamente impossível encontrá-lo de forma legal. E esse mesmo fim também aconteceu a diversos outros jogos baseados em filmes, assim como aconteceu com o oposto: com filmes baseados em jogos. Como se explica o fato de poucas obras adaptadas de livros do Stephen King serem consideradas tão boas quanto o original?

Isso deixamos para o último ponto deste editorial…

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  • Mídia Comercial x Arte: quando o hype fala mais alto

Pense naquele fiasco narrativo que foi sucesso comercial. De Spider-Man 3 até Star Wars I – A Ameaça Fantasma, não é difícil encontrar filmes que lucraram mais pelo hype do que pelo resultado final. E aí temos o que chamamos de mídia comercial, quando produzimos simplesmente para vender, e não para entreter ou causar pensamento ou espanto. Normalmente, essas obras provocam hype através de uma marca famosa, seja ela de produtos ou pessoas. Há uma grande massa de produtos assim em todos os tipos de mídia, mas acaba sendo mais comum encontrar isso no cinema. E há uma certa “categoria especial”, criada por quem é mais próximo do universo cinematográfico, para classificar esse tipo de filme.

Talvez você os conheça por “pipocão” ou “entretenimento barato”. Seja qual for o nome que quiser dar, é o tipo de coisa que um experiente no ramo cinematográfico não pagaria mais de R$2,50 para ver em um cinema. Podemos pegar a franquia Os Mercenários. Ela não possui um valor artístico, mas o seu conceito exagerado somado à seleção de atores famosos por filmes de ação fez com que fosse elogiado pelo fator diversão e entretenimento. Ressalto que a intenção deste editorial não é proibir a existência desses tipos de filmes, cujo eu mesmo gosto bastante quando são bem produzidos, mas sim mostrar que há grande parcela da arte de se contar uma boa história com uma mensagem profunda se perdendo em prol do entretenimento rápido e superficial, que não provoca pensamento.

O ideal seria existir um balanceamento para não abarrotar o mercado cinematográfico, mas, enquanto existir um jeito fácil de lucrar, Hollywood continuará a fazer filmes de comédia pífios com Adam Sandler ou adaptações mal feitas somente para acompanhar o sucesso, como foi o caso de 50 Tons de Cinza. É claro que esse é um sonho utópico, pois mesmo nas mídias aqui citadas há uma grande parcela de conteúdo repetitivo e genérico, mas que vende bastante. Nos videogames, podemos citar a grande invasão de shooters, sejam eles em primeira e terceira pessoas, e a presença ainda forte da franquia Call of Duty nos rankings de vendas atuais. Nos livros, podemos citar a mistura de personalidades da Internet com literatura ao notarmos o aumento de livros de youtubers. E nos quadrinhos, podemos ver uma grande decadência de vendas de revistas e maior enfoque em séries e filmes do que nas próprias HQs, o que provoca reuso de ideias (Guerra Civil 2 está aí pra provar o que digo) e eventos forçados para chamar a atenção dos leitores mais uma vez (a DC afirmar que a identidade do Coringa seria revelada, por exemplo). Quem mais sofre com isso é quem procura um bom conteúdo, seja ele simples ou complexo, para poder apreciar e discutir com os amigos.

E aí fica o questionamento: como fugir do conteúdo repetitivo?

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  • Conclusão

Aqui, dentre tantos argumentos, vimos o que podemos chamar de Guerra de Mídias. Quando se trata de conquistar o consumidor, um produto precisa, necessariamente, competir não só com o mesmo tipo de mídia como também com outros formatos. O que quero dizer é que após pagarmos nossas contas, o dinheiro que sobra para o entretenimento é sempre limitado e isso automaticamente limita também as nossas escolhas quanto ao que devemos gastar nosso dinheiro. Um filme ou game muito divulgado pode facilmente nos chamar mais a atenção do que um livro ou quadrinho, mas a chance de se decepcionar e ter preferido apostar em algo mais underground continua a existir em ambos os casos. E a solução pode ser um pouco mais fácil do que parece!

Nós, os consumidores, podemos sempre nos aventurar em meio a recomendações, diretores renomados e em novas empreitadas narrativas. E mais do que isso, podemos sempre ampliar o nosso horizonte. Por que só nos reservarmos a filmes quando há várias outras mídias as serem exploradas? Caso uma adaptação não nos agrade, podemos sempre procurar o original, seja ele qual for. Ou caso uma narrativa nos decepcione, sempre podemos procurar algo similar em outra mídia onde ela pode ser melhor explorada. Por exemplo, podemos ler um livro de suspense policial ruim e depois assistirmos a Seven – Os Sete Crimes Capitais, que também recomendamos pelo Facebook, e nos surpreender.

O importante é se abrir a todos os tipos de mídias, narrativas e épocas. Seja algo novo ou antigo, sempre podemos nos surpreender positivamente com o que os criadores de conteúdo tem a nos oferecer. Mesmo em uma época em que o capital fala mais forte, cada vez mais produções independentes continuam a aparecer para tentar contar suas histórias e até mesmo inovar ao criar um novo estilo de entreter. Junto ao avanço da tecnologia, a criatividade humana também não é algo que deve se apagar tão cedo. E para aproveitar tudo que há de bom, é preciso que abramos nossas mentes para o novo e o diferente. Sejam jogos, livros, quadrinhos, animações, filmes, documentários…

Há muita coisa a se aproveitar, então por que não começar agora?

Um comentário sobre “A guerra das mídias e a perda de conteúdo

  1. Pingback: A colisão de heróis… e de histórias | Arte 7

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